Os organismos transgênicos são aqueles cujo
genoma foi modificado com o objetivo de atribuir-lhes nova característica ou
alterar alguma característica já existente, através da inserção ou eliminação
de um ou mais genes por técnicas de engenharia genética. Entre as principais
características almejadas encontram-se o aumento do rendimento com melhoria da
produtividade e da resistência a pragas, a doenças e a condições ambientais
adversas; a melhoria das características agronômicas, permitindo uma melhor
adaptação às exigências de mecanização; o aperfeiçoamento da qualidade; a maior
adaptabilidade a condições climáticas desfavoráveis e a domesticação de novas
espécies, conferindo-lhes utilidade e rentabilidade para o homem.
A liberação dos transgênicos no Brasil,
particularmente aqueles com finalidade comercial, vem provocando intensa
polêmica quanto a possíveis riscos à saúde e ao meio ambiente (como pode ser observado no Quadro 1). Tal polêmica,
que envolve diversos atores, como cientistas, agricultores, ambientalistas e
representantes do governo, refere-se ao nível de incerteza atribuído a esses alimentos
diante da chamada segurança alimentar.
Nos estudos que abordam
a segurança alimentar dos alimentos transgênicos, a análise é feita
principalmente pela exposição de riscos e incertezas desses produtos, quanto a
saúde e meio ambiente.
Com relação aos riscos para a saúde, preocupações
relacionadas com os OGMs (Organismos Geneticamente Modificados) são o receio de
uma possível resistência bacteriana aos antibióticos empregados na modificação
genética, e o aumento das alergias alimentares às novas proteínas. Utilizam-se
genes marcadores de resistência a antibióticos, cuja função é selecionar e
confirmar se a alteração genética foi de fato realizada da maneira planejada.
No entanto, discute-se que tais genes podem continuar a ser expressos nos
tecidos da planta e, ao serem ingeridos através dos alimentos, reduziriam, no
homem, a eficácia do antibiótico comumente administrado no combate a doenças.
Argumenta-se também que esses genes de resistência poderiam ser transferidos a
patógenos humanos ou animais, tornando nulo o efeito da aplicação de certos antibióticos.
A crescente resistência de organismos aos antibióticos vem sendo avaliada como
problema grave para a saúde pública.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) e
associações médicas americanas, entre outros, expressam preocupação de que se
"os genes resistentes a antibióticos" usados em alimentos GM se
transferissem para bactérias, poderiam resultar no aparecimento de
superdoenças. Tal fato motivou a Associação Médica Britânica a declarar uma
moratória para alimentos.
Além disso, a alergenicidade é um importante
risco a ser analisado com o efeito dos alimentos trangênicos, considerando-se
que os alergênicos alimentares são proteínas que podem ser oriundas de genes
endógenos ou exógenos. Com o objetivo de avaliar o potencial de alergenicidade
de proteínas transgênicas, a FAO estabeleceu inicialmente a comparação das
estruturas da nova proteína com as de alergênicos já conhecidos, alinhando as
sequências de aminoácidos em bases de dados. A seguir, caso a fonte do gene
fosse confirmada como alergênica, deveria ser realizado um teste com soro de
pacientes alérgicos a essa fonte.
Com relação aos riscos
para o meio ambiente, destacam-se as transferências vertical (acasalamento
sexual entre indivíduos da mesma espécie) e horizontal (DNA transferido de uma
espécie para outra, aparentada ou não). No Brasil, região de grande variedade
genética de sementes crioulas, esse tipo de risco configura grande desafio. Lewgoy
(2000), analisou em sua obra “A voz dos cientistas críticos, História,
Ciências, Saúde”, os riscos ambientais dos alimentos transgênicos e apontou
a possibilidade de cruzamentos genéticos não esperados. Destaca falhas nos
testes de toxicidade apresentados por uma empresa produtora de transgênicos à
CTNBio (Coordenação-Geral da Comissão Técnica Nacional de
Biossegurança) e a falta de avaliação adequada dos riscos de toxicidade
e alergias de seu produto, para obtenção da liberação comercial.
Já com relação ao
mercado, a monopolização das sementes transgênicas pode proporcionar a
diminuição da disponibilidade de alimentos, como destaca Spendeler (em sua obra
“Organismos modificados geneticamente: una nueva amenaza para la seguridad
alimentaria”) ao analisar a segurança alimentar dos produtos transgênicos,
discutindo as incertezas, os riscos e a monopolização desses alimentos. Segundo
a autora, todas as sementes transgênicas pertencem a um pequeno número de
multinacionais, daí resultando a monopolização do mercado mundial desementes,
com os agricultores cada vez mais dependentes dessas empresas. A autora afirma:
"a segurança alimentar em termos de disponibilidade de alimentos está em
jogo". Spendeler conclui seu estudo ressaltando a tendência à
industrialização que tais cultivos proporcionam, desconsiderando as
necessidades das comunidades locais e a biodiversidade agrícola. Tais aspectos
constituem fatores importantes para atestar a insegurança alimentar desses
produtos.
A principal conclusão
refere-se à pequena produção científica sobre a segurança alimentar dos OGMs no
campo da saúde pública, quando comparada aos demais estudos sobre os
transgênicos. O escasso número de estudos sobre o tema evidencia que a polêmica
sobre a adoção/incorporação desses alimentos justifica-se, entre outros
elementos mencionados anteriormente, pela incerteza de seus efeitos sobre a
saúde e o meio ambiente, como também pela ausência de dados experimentais.
Sendo assim, no cenário
atual de incertezas sobre os possíveis efeitos dos alimentos transgênicos, a
rotulagem é um mecanismo que possibilita ao consumidor decidir se aceita ou não
consumir alimentos cujas propriedades não são ainda suficientemente conhecidas
pela ciência. Além disso, é direito do consumidor ser informado de maneira
adequada sobre a qualidade, quantidade e composição dos alimentos que pretende
adquirir. A rotulagem permite, ainda, rastrear a origem do alimento, em casos
de eventuais problemas. A questão da rotulagem precisa ser compreendida no
âmbito da segurança alimentar. Sem rotulagem, é impossível fazer biovigilância,
que é mecanismo de garantia de segurança alimentar.
Fonte: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-59702009000300006&script=sci_arttext









